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Coldplay inicia turnê de 11 shows no Brasil mexendo com corações, mentes e economia do país

Mariana Rosário e Ruan Sousa Gabriel

10 de março de 2023


Lá pelas 20h30 desta sexta-feira, quando os britânicos do Coldplay apresentarem os primeiros acordes da turnê Music of the Spheres, terá início uma longa caminhada de 11 shows cercados de ineditismos e que promete impactar as três capitais por onde passará nos próximos dias. E nunca antes a produtora Live Nation realizou um volume de apresentações tão grande de um artista internacional em uma única cidade. O Estádio do Morumbi, na Zona Sul de São Paulo, também nunca acomodou tantos shows, seis, de uma única turnê. Na toada de apresentações (coalhadas de luzes multicoloridas e hits), há ainda três datas no Rio, no Engenhão, e mais duas em Curitiba, no Estádio Couto Pereira.

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Os tickets foram esgotados tão rapidamente que se tornaram exemplo para coachs influencers explicarem o “princípio da escassez” na economia. Por falar em negócios, a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH-SP) diz que a atração deve levar ao aumento de 30% da ocupação de estadias na região do Morumbi e Brooklin, bairros mais próximos ao estádio. O diretor da rede de hamburguerias Johnny Rockets no Brasil, Alan Torres, tem números mais apetitosos: espera-se que a unidade da marca a 1,4 quilômetro de distância do estádio chegue a vender diariamente dez vezes mais lanches do que quando há jogo do São Paulo Futebol Clube, time do Morumbi. A estimativa é de 80 mil hambúrgueres diários só naquele ponto — isso sem contar os que serão vendidos dentro do estádio. No Butantã Shopping, haverá vagas extras no estacionamento, que ficará aberto até o último cliente, explica o coordenador de marketing, Franklin Pedroso. A Subprefeitura Butantã fiscalizará os estacionamentos da região para verificar a regularidade das licenças de funcionamento.

O Metrô e a CPTM dizem estar a postos para aumentar o número de trens caso haja dificuldade no vaivém de fãs entre as estações. A SPTrans informa que 13 linhas de ônibus que passam pelos arredores do estádio serão desviadas. A Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) vai monitorar o trânsito nas proximidades e já divulgou trechos cujos acessos podem ser bloqueados nos dias dos shows. Portanto, se pretende ir ao Morumbi de carro, vale consultar antes o site da CET para não perder a viagem.

— O Coldplay se insere de maneira diferente no mercado. São diversos shows em um único endereço que demanda que a cidade se organize logisticamente. Para você ter uma ideia da intensidade desse grupo, na Argentina, com sua inflação de 100%, eles atingiram a capacidade máxima de todos os shows. E o Banco Central criou o chamado “dólar Coldplay” para tentar oferecer maior estabilidade de câmbio com essa moeda, de uso temporário, e atrair mais atividades do tipo — explica Carla Beni, economista e professora de MBAs da Fundação Getulio Vargas (FGV). — Além de movimentar a economia formal e informal (barraquinhas de venda de comida, de camisetas etc.), esse evento é um objeto de desejo, é para ver e ser visto. Então, também é esperado que serviços estéticos, como salões e manicures, sintam impacto positivo. Ninguém quer sair tombado nas fotos do show.

Viva La Vida

Não é só o mercado das metrópoles que a banda deve sacudir. Há um séquito de fãs ansiosos e emocionados para finalmente assistir à turnê mundial, após os cancelamentos causados por uma infecção pulmonar sofrida pelo vocalista Chris Martin, em outubro passado.

— Dizia aqui em casa que eu não morreria sem ver um show deles. Ia no ano passado, mas a apresentação ocorreria na semana de uma sessão da quimioterapia de um câncer que eu descobri um pouco antes. O show, por fim, foi cancelado — rememora a enfermeira aposentada Gladys Marinelli, moradora da capital paulista que viverá no show do dia 18 a realização de um sonho. — Neste ano, fui internada em 12 fevereiro para fazer a cirurgia (do tumor). Foi uma choradeira porque achei que ia perder a apresentação. Passei dez dias na UTI e depois de mais cinco na enfermaria tive alta. Antes de deixar o hospital, perguntei para o meu oncologista: posso ir ao Coldplay? Ele caiu na gargalhada, disse que sim. Só me proibiu de pular. Eu vou comemorar. “Viva la vida”, é isso que eu vou fazer lá — emociona-se.

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Gladys guarda uma meiga semelhança com o vendedor cearense Vanderley Vieira: ambos não titubeiam ao dizer que “Viva la vida” é sua canção favorita do quarteto.

Vieira — que quis saber da reportagem do GLOBO como estava, afinal, o clima em São Paulo — é um dos mais ansiosos. Esta é a segunda vez que ele vem à capital paulista ver Chris Martin e cia. Mas é a primeira vez que o show de fato ocorrerá (se nada mudar nas próximas horas, espera-se). Em outubro, Vieira viralizou nas redes ao compartilhar que havia tatuado no braço a data do show do Coldplay: 15/10/2022 (que ganhou novo significado já que a apresentação foi adiada com os problemas de saúde do vocalista

Vanderley Vieira é fã do Coldplay há uma década. Tatuar o nome da banda já estava nos planos. Mas, quando seu tatuador anunciou uma promoção, ele mudou de ideia e preferiu registrar no braço a data em que realizaria o sonho de ver os ídolos no palco:

— Na minha cabeça, não tinha como dar errado, né?

Mas deu, e Vieira não conseguiu cancelar hospedagem nem passagem. Aproveitou para passear e fazer compras em São Paulo. Famoso na internet por conta da tatuagem, foi convidado para ir a Poços de Caldas (MG), assistir ao um show de uma banda cover. Até subiu no palco. Todo mundo queria tirar foto com o “rapaz da tatuagem”. Ele pensava em tatuar uma linha vermelha em cima da data adiada, mas mudou de ideia. — Vai ficar de lembrança. Agora, quero tatuar a nova data — diz ele, que estima ter gastado cerca de R$ 5 mil reais entre passagem (duas), hospedagem (duas) e ingresso do show (um só).

A celebração dará o tom das quatro apresentações (sim, você leu certo) a que o casal Gabriela e Antoine Tignon deve assistir junto nos próximos dias. Ambos se conheceram na internet por conta da paixão em comum pela banda (a moça é chefe de um dos maiores portais dedicados ao grupo, com uma década de existência, o Coldplay Brasil). Na época, o rapaz morava na França e, após livrarem-se das restrições da Covid-19, em agosto de 2020, encontraram-se pela primeira vez.

— Fomos ao Rock in Rio ano passado. A banda é um elo importante entre nós. Nossa primeira dança no casamento foi ao som da canção “Sparks” — ela diz.

Além de toda louvação dos fãs, a maratona de shows deverá ser usada pela administração do Morumbi para se recolocar na rota de grandes shows internacionais. A arena já recebeu, na década de 1980 e 1990, artistas do quilate de Queen, Michael Jackson e mais recentemente Bruno Mars, Lady Gaga e Madonna. As atrações minguaram com a chegada do Allianz Parque, mais novo e centralizado.

— Os grandes shows sempre estiveram aqui e perdemos essa primazia. Ano passado, fizemos Metallica e Iron Maiden, agora com o Coldplay marcamos nosso retorno — afirma Eduardo Toni, diretor de marketing do São Paulo FC. — Considerando apresentações fechadas e mais outros artistas em negociação, queremos chegar a 13 megaeventos na arena este ano, com receita estimada de R$ 25 milhões para o clube.

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